sábado, 31 de outubro de 2015

Um olhar

Olhei-te nos olhos e baixaste a cabeça. Segui-te sem pensar e mergulhei no profundo caudal de neblina estonteante. O meu cérebro não processa informação da mesma forma após este choque visual. É magnético, lembro-me de ter pensado. Aquele não é bonito...não é atraente, sequer. Eu nem gosto de pêlos faciais.  Pêra !? Quem é que no século XXI se pavoneava de pêra !? Que ridículo!
Porque razão os meus olhos o procuram e o meu corpo o acompanha? Ele foge e eu quedo-me a processar a neblina que acabou de me perpassar o corpo mas, sobretudo, a alma. Bolas, o que acabou de me suceder?
Carla, é o meu nome de batismo.
Considero-me uma mulher inteligente e tenho tendência para explicar os fatos, os acontecimentos e reagir-lhes de forma emocionalmente deliberada. Emotiva mas racional. Carinhosa sem me sentir abusada, seja de que forma for. Aqui sinto-me manipulada para além do compreensível. Ajo de forma sensorial. Demasiado, até.  Vejo e quero ver mais. Ouço, gosto e quero ouvir mais. Até à exaustão. Este pensamento sempre presente persegue-me e eu, como compensação, devo fazer alguma descarga fisiológica mental e inconsciente. Perdi a vontade de comer. Ou melhor, sinto fome mas não possuo qualquer vontade de sucumbir a esse desejo físico.  Emotivo? Talvez.
Como reagir a isto ? Os amigos dizem-me que as coisas acontecem por uma razão. E eu começo a duvidar disto. Como é possível?!
Deito e acordo-me com aquela imagem dele e, pior, com o som da sua voz emotiva e ondulante que me deixa perturbada. Já sei, explico-me: é tão raro ver um homem completo, sereno e emotivo. Que pensamento perturbante!
Haverá, por certo, homens intensamente emotivos por este pequeno mundo adentro. Será que os há mesmo?
Talvez a hipótese mais experimentada será a de, na vida, fazermo-nos uns aos outros. Sim, insinuamo-nos. Às vezes insistimos tanto que o nosso corpo responde, atua, corresponde. E acabamos por ficar pelo possível. Pelas hipóteses circundantes, existentes, simples, racionalmente passíveis de resultar em termos relacionais.
Mas a hipótese contrária também não aventa melhores presságios. Arriscar relações à distância, via internet, sem conhecer as pessoas presencialmente. Como pode resultar? Não há respostas fáceis.
Mas aquele homem apresenta carisma, alguns poderão aventar...mas onde, Deus, onde? Tenho dificuldade em explicar-me o acontecimento recorrente. É baixo, peludo, sem formação superior e absolutamente nem currículo. É um zé-ninguém!
Ahhh... Deus e com aquela voz emotiva e vibrante consegue dar vida a qualquer ser humano pouco profundo e unidimensional. Não...será isso? Só isso!?
Devo ser uma pessoa muito infeliz e estar muito miserável. Não vejo realmente o que se passa. Não é o visual o mais importante nos dias que correm?
Ah, mas as relações humanas também se baseiam tanto no cheiro. Os ginásios encontram-se cheias de pessoas várias, promíscuas, algumas que, após longos e suados treinos, se saúdam, cheiram e se sentem interessadas numas nas outras. São as hormonas desenfreadas a falar mais alto, adentro da solidão quotidiana. Será isso, a solidão!? O estado emocional fragilizado e carente que me faz olhar para gente feia? Bolas, como me auto-psicanalizar, neste caso?
Comovo-me a pensar na minha fragilidade...tanta dor e não sei onde ela acaba.  É a distância a que o senhor se coloca, a timidez que me deprime e leva a bater repetidamente com a cabeça na parede. Apelo à comunicação e .... zero. Posso ser amada e não o saber mas a incerteza dói.
Persisto no ato comunicativo, grito mudamente e o universo não me responde como eu pretendia...ah, Carla quanta deambulação apaixonada, carente e solitária! Como desejas este tipo de amor, sofrido, arrebatador e incompreensível!
Poderá esta visão ser auto-punitiva, uma diferente forma de sofrer e de me abusar? As tuas imagens e sons enchem os meus dias mas os meus olhos nunca te acharam real, o meu olfato nunca te encontrou, a minha mão nunca te sentiu. Será, Deus meu,  que foi só um sonho que tive?
Deus continua a permanecer neste texto. Persegue o homem...perseguirá o homem Deus? Estarei eu a perseguir Deus neste homem?
Esta adolescente ainda borbulhenta, estudou alguns místicos Jesus, claro, Hadjewich (uma beguina do século XIII), São João da Cruz , Meister Eckhart e o actual, com muitos livros vendidos, o Eckhart Tolle, e agora, o relido Lao-tzu. O Taoismo não me é totalmente conhecido mas todos os caminhos apontam numa só direção. Nós e o mundo somos uno. Estamos em sintonia quando estamos em silêncio, em paz.
Ser detentor de uma voz interior bastante concentrada permite tentar compreender o mundo como um todo equilibrado, certo, onde nada acontece por obra do acaso. Seguindo este novo raciocínio, Carla encontrou-se a ler de novo, a ler, a reler. O mundo físico seria, de acordo com estas ideias, muito redutor. Já li psicologia, sociologia, alguma religião, sou bombardeada pelos meios de comunicação social bastante tendenciosos, estou muito em contato com o meu interior. Faço auto-psicanálise. Em mim e noutros. Acerto, por vezes.  
Toda esta música de diferentes áreas: física quântica, ecologia, nutrição, respeito pela natureza (e pelo próprio corpo), o escutar o eu, adotar uma mentalidade positiva sobre o mundo e pelos seus habitantes, constituem uma visão holística que faz sentido. Este senhor, não bonito, não interessante mas magnético e talentoso, conseguiu conectar-me com o divino. É uma pedra preciosa humana como nunca conheci igual. A sua voz atrai e o seu silêncio ensina.

Ou seja, eu tinha razão. Esta atração nunca poderia ser física. Quero aproximar-me dele, é verdade mas é para aprender. Um verdadeiro professor de corações. Para ele, a minha vénia, o meu sincero aplauso. Bravo!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Contemplo
a brincadeira ténue.
A leveza de ser e estar...
Sentir a graça e a alma 
entrecruzadas.


Voar pelas asas dadas
e
desenhar-me deus
pela graça de um novo dia.

E aceitar a escrita,
escrever-me por linhas construtoras.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Retrato a Nu


O que vejo com os olhos do coração, estende-se pela realidade adentro.
Sonho pistas...imagino o sonho-real em que me escrevo vencedora.
As minhas conquistas são visíveis e a minha recompensa, é a liberdade.
Rio de sapiência profunda
vive dentro de mim.
Corro para lhe chegar.
Lições da dor
relembro
e a vida olho, agora, mais doce.
Cultivo-me com amor,
escrevo-me com sorrisos.
Pertencer ao amor,
polvilha com luz
o ser.

domingo, 5 de julho de 2015

Pinto com contornos

Pinto com contornos
de contos,
os pontos com que teço
a minha história.
Reboredo floral tamanho,
permito-me erguer
a conselho de quem
me ilumina.

Tropeço no dia-a-dia
com a força de saber
que as palavras, essas,
aguarelam-me os dias.

Saga de linhas errantes



Quotidianamente, caio.
Busca errante na procura
de padrões lúcidos,
num corpo que se tece divino.

Humanamente...
vejo sujidade, escombros e pó.
Pó és, pó serás.

Raciocino a verdade e contemplo,
chorando,
as marcas visíveis da guerra.

O templo está intacto,
mas profanado.
As brigas desferidas, a igualdade dos dias,
a dedicação quase exclusiva
ao sofrimento,
acumularam excessos...

A rotina circular demonstra
a poderosa queda.

A luz divina, em mim,
reflete a séria responsabilidade
do amanhã.

É a mim que me compete
o riso, desferido graças à maturidade das feridas.

Consenti, acedi,permiti à vida
que me encontrasse no chão.
Comi restos e vi
que eram bons.
Rezei como pude e servi como sabia.
Semeando, encarrego-me de viver
no dia-a-dia.

Ensino ... mas o próximo
é que deve aprender.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A velhice

A velhice

que a alma povoa,
relembra o divino.
Espelha-te forte no classicismo da
palavra, do gesto, do sentimento.

Sou velha. Mais do que o corpo exprime,
mais do que a saudade 
deixa antever.

Carrego em mim
o poder criativo divinal,
como segredo sobrenatural
...oh poética do ser.

Quero emulsionar a carne
em banhos de criatividade tal,
divinizando o humano.

Oceano


É o vento que te atira e desenha as formas.
Entregas-te ao teu escultor, banhada por sol e batizada por chuva.
Acolhes as bênçãos e preservas-te,
imutavelmente belo.
Permites que a vida circule 
dentro e,
quieto quedas
autorizando, a vida lá fora.

Man Boy


Her body lays
where women are.
The sweetness of belonging 
at a boy's smile.
The nudity mirrors love
incarnated through a kiss.
She is Venus
as she loves.
She is a girl,
playing innocently.
She caresses with her eyes closed.
The unsaid of words...is
the writing of being.
The souls' devotional love
is there...waiting, sharing, patiently.
The softness of you is felt in me,boy.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Cerro os olhos
E a vida se entrega.

Exalo
O peso dos dias.
Ó Deus,
que na vida me cresces
na devoção calada….
Revela-te!
No tempo, no trabalho,
No próximo.

Quando o corpo à cama pertence,
O Deus-Sol se revela.

Maria-lua és
do amor nascido.
Espírito e espírito,
Pelo milagre
Criado.

Transfiguração do ser,
A noite carrega.
O sonho é real
Pois o espírito,
A Deus,

Se entrega.