sexta-feira, 6 de junho de 2014

                   A gratidão


Na nobreza de ser professor. Não tenho trabalho. Passo os dias na arte de ser eu. Escrevo no coração dos outros. Quem sou, parte com os alunos no último dia de aulas. É na partilha, na divisão do pão, na entrega que me conheço e cresço.
Obrigada, meu deus, pelas dificuldades do mundo pois ajudam-me a evoluir. É na dádiva que me multiplico. As crianças registam o que sou. Sou professora e escrevo com amor. 


domingo, 9 de fevereiro de 2014

UM OLHAR


Olhei-te nos olhos e baixaste a cabeça. Segui-te sem pensar e mergulhei no profundo caudal de neblina estonteante. O meu cérebro não processa informação da mesma forma após este choque visual. É magnético, lembro-me de ter pensado. Aquele não é bonito...não é atraente, sequer. Eu nem gosto de pêlos faciais.  Pêra !? Quem é que no século XXI se pavoneava de pêra !? Que ridículo!
Porque razão os meus olhos o procuram e o meu corpo o acompanha? Ele foge e eu quedo-me a processar a neblina que acabou de me perpassar o corpo mas, sobretudo, a alma. Bolas, o que acabou de me suceder?
Carla, é o meu nome de batismo.
Considero-me uma mulher inteligente e tenho tendência para explicar os fatos, os acontecimentos e reagir-lhes de forma emocionalmente deliberada. Emotiva mas racional. Carinhosa sem me sentir abusada, seja de que forma for. Aqui sinto-me manipulada para além do compreensível. Ajo de forma sensorial. Demasiado, até.  Vejo e quero ver mais. Ouço, gosto e quero ouvir mais. Até à exaustão. Este pensamento sempre presente persegue-me e eu, como compensação, devo fazer alguma descarga fisiológica mental e inconsciente. Perdi a vontade de comer. Ou melhor, sinto fome mas não possuo qualquer vontade de sucumbir a esse desejo físico.  Emotivo? Talvez.
Como reagir a isto ? Os amigos dizem-me que as coisas acontecem por uma razão. E eu começo a duvidar disto. Como é possível?!
Deito e acordo-me com aquela imagem dele e, pior, com o som da sua voz emotiva e ondulante que me deixa perturbada. Já sei, explico-me: é tão raro ver um homem completo, sereno e emotivo. Que pensamento perturbante!

Haverá, por certo, homens intensamente emotivos por este pequeno mundo adentro. Será que os há mesmo?

A póetica da carne



“Os dedos trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão enviar” e ali fiquei, olhando fixamente para o monitor. Não sabia se a atitude seria a certa, se o momento seria o indicado mas tudo o que eu sou me gritava para o fazer.  A missiva, essa, breve, ingénua e insegura, espelhava dor e solidão que manipularia a compaixão de qualquer receptor. Mas o que eu pretendia era a atenção daquele. O especial.
A mera hipótese de resposta tornava-me trémula de excitação, enlevada no amor celestial das palavras trocadas. Quedei-me fixada nas emoções carregadas por pensamentos santificados de amor e a mente abstraíra-se do tempo. O possivelmente tangível, denominado de cronológico. Não fora o gato roçar-me as pernas e...jamais o barulho dos ponteiros do relógio me pareceriam uma banda sonora inusitada. Olho as horas e suspiro.
Olho de soslaio à janela. Lá fora chove. Cá dentro choro. A revolta que se transformou em doença clínica e que me empurrou os químicos para dentro do corpo, eram agora mais que justificados. Olho-me despida, ao entrar na banheira, e sei que esta pele não era a mesma de há um ano atrás, as unhas enfraqueceram...contemplo os rastos físicos da fragilidade humana.
Admito-o: sou pedinte de amor. E ele têm-no como ninguém. Quero a sua dádiva em mim. Fecho os olhos e quase que sinto o seu respirar no meu pescoço, as suas mãos fortes e determinadas, seguras e pacientes que contrastam com o fulgor do seu desejo. Carnal e profundo. Contido, mas presente. O fulgor da sua presença acalentam-me os dias e tornaram-se refúgio da dor. Onde estaria eu se não te sonhasse?
Os teus lábios tocam os meus, mas não me atrevo a olhar-te, o fulgor que  despertas faz irromper de mim partes secretas inenarráveis. Curas-me na dor, na tristeza e na distância. Fisicamente longe cantas a sacralização do meu corpo, abençoando o espírito, acompanhando-me na vida. Atrevo-me a sentir: não é suficiente! Quando me telefonarás!?

Conheço a tua pele escrita de negro com números, datas, siglas e nomes. Meu Deus, merecia a tua tez alva de cor! Como queria pintar as tuas mãos de pureza e brancura. Não me adulteres...são elas que permito que me percorram o corpo virginalmente consagrado...talvez não me mereças, amor, mas a ti me entrego, escravo.  Onde a chuva, cai, o beijo invade, o toque atreve e a luz persiste.