Olhei-te nos olhos e baixaste a cabeça. Segui-te sem pensar e
mergulhei no profundo caudal de neblina estonteante. O meu cérebro não processa
informação da mesma forma após este choque visual. É magnético, lembro-me de
ter pensado. Aquele não é bonito...não é atraente, sequer. Eu nem gosto de pêlos
faciais. Pêra !? Quem é que no século
XXI se pavoneava de pêra !? Que ridículo!
Porque razão os meus olhos o procuram e o meu corpo o
acompanha? Ele foge e eu quedo-me a processar a neblina que acabou de me
perpassar o corpo mas, sobretudo, a alma. Bolas, o que acabou de me suceder?
Carla, é o meu nome de batismo.
Considero-me uma mulher inteligente e tenho tendência para
explicar os fatos, os acontecimentos e reagir-lhes de forma emocionalmente
deliberada. Emotiva mas racional. Carinhosa sem me sentir abusada, seja de que
forma for. Aqui sinto-me manipulada para além do compreensível. Ajo de forma
sensorial. Demasiado, até. Vejo e quero
ver mais. Ouço, gosto e quero ouvir mais. Até à exaustão. Este pensamento sempre
presente persegue-me e eu, como compensação, devo fazer alguma descarga
fisiológica mental e inconsciente. Perdi a vontade de comer. Ou melhor, sinto
fome mas não possuo qualquer vontade de sucumbir a esse desejo físico. Emotivo? Talvez.
Como reagir a isto ? Os amigos dizem-me que as coisas
acontecem por uma razão. E eu começo a duvidar disto. Como é possível?!
Deito e acordo-me com aquela imagem dele e, pior, com o som
da sua voz emotiva e ondulante que me deixa perturbada. Já sei, explico-me: é
tão raro ver um homem completo, sereno e emotivo. Que pensamento perturbante!
Haverá, por certo, homens intensamente emotivos por este pequeno
mundo adentro. Será que os há mesmo?
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