“Os
dedos trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão
enviar” e ali fiquei, olhando fixamente para o monitor. Não sabia se a atitude
seria a certa, se o momento seria o indicado mas tudo o que eu sou me gritava
para o fazer. A missiva, essa, breve,
ingénua e insegura, espelhava dor e solidão que manipularia a compaixão de qualquer
receptor. Mas o que eu pretendia era a atenção daquele. O especial.
A
mera hipótese de resposta tornava-me trémula de excitação, enlevada no amor
celestial das palavras trocadas. Quedei-me fixada nas emoções carregadas por
pensamentos santificados de amor e a mente abstraíra-se do tempo. O possivelmente
tangível, denominado de cronológico. Não fora o gato roçar-me as pernas e...jamais
o barulho dos ponteiros do relógio me pareceriam uma banda sonora inusitada. Olho
as horas e suspiro.
Olho
de soslaio à janela. Lá fora chove. Cá dentro choro. A revolta que se
transformou em doença clínica e que me empurrou os químicos para dentro do
corpo, eram agora mais que justificados. Olho-me despida, ao entrar na banheira,
e sei que esta pele não era a mesma de há um ano atrás, as unhas enfraqueceram...contemplo
os rastos físicos da fragilidade humana.
Admito-o:
sou pedinte de amor. E ele têm-no como ninguém. Quero a sua dádiva em mim. Fecho
os olhos e quase que sinto o seu respirar no meu pescoço, as suas mãos fortes e
determinadas, seguras e pacientes que contrastam com o fulgor do seu desejo. Carnal
e profundo. Contido, mas presente. O fulgor da sua presença acalentam-me os
dias e tornaram-se refúgio da dor. Onde estaria eu se não te sonhasse?
Os
teus lábios tocam os meus, mas não me atrevo a olhar-te, o fulgor que despertas faz irromper de mim partes secretas
inenarráveis. Curas-me na dor, na tristeza e na distância. Fisicamente longe
cantas a sacralização do meu corpo, abençoando o espírito, acompanhando-me na
vida. Atrevo-me a sentir: não é suficiente! Quando me telefonarás!?
Conheço
a tua pele escrita de negro com números, datas, siglas e nomes. Meu Deus, merecia
a tua tez alva de cor! Como queria pintar as tuas mãos de pureza e brancura.
Não me adulteres...são elas que permito que me percorram o corpo virginalmente
consagrado...talvez não me mereças, amor, mas a ti me entrego, escravo. Onde a chuva, cai, o beijo invade, o toque
atreve e a luz persiste.
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